FERNANDO PESSOA, O AFRICANO *
Foto oferecida pelo poeta à Tia Anica (Ana Luísa Pinheiro Nogueira), Janeiro de 1914, com a seguinte legenda: Representação visível de si-próprio.
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«Estranho só o raro, e raros são os mortos, que um morto fale, aos medíocres soará impossível, mas eu caminhei sobre as águas do Império, vi Portugal de longe, primeiro num sonho, uma memória de criança magoada, uma saudade que revelava o meu nome. Eu caminhei sobre as águas e voltei, a uma Lisboa na barriga da névoa, cada vez mais próxima, em declínio, inerme no tempo, em nada assemelhada à talha onírica, esquecida de si, cheia de sonâmbulos, de fala-sós, de intelectuais de pacotilha e poetas preocupados com sentimentos. As ruas, um lixo, a universidade, um tédio, as mulheres, uma anedota, os amigos, inconsequentes.
Vivo na fronteira dos dias sem Portugueses, seremos um féretro, os homens do Império, sem o «fardo do homem branco» que tanto abate os Ingleses, o nosso fardo é o fantasma de tudo incendiado na alma, o fardo do que poderia ter sido e não pôde ser.
Na minha vida agiganta-se o último lamento do que o Império foi, e o pórtico do que o Império será, não este, podre já nos livros de História, mas aquele que alucina a alma no dentro tormentoso do Oceano, com as vagas altas em redor, num país de pinhais sem chão na palavra. É das águas, foi das águas, é das águas e será, porque este Leviatã informe que me assombra é o porvir, para onde a ruína do que pôde ser, o que ergueu do pó o negro e o índio, o mouro e o godo, mudará a uma pele de prata além da alquimia, azul que não há no céu, uma vasta terra indescoberta.
Não terá um sinal nos mapas, uma rota, da luneta no convés não se verá, e é, é como o que agita a espuma nas praias com um gemido cavo do abismo do mar, debaixo de todos os luares, as serras invencidas e as minhas mãos trémulas que sabem já o que nem sonho e serei, fundamente serei, porque eu vim sobre as águas e vi o continente último, feito da carne do vento e do espírito, com um coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança.
Portugal não é o país que sou, é o Império que fui. O que serei não mancha ainda as páginas dos atlas, sei que terá palmas e dança, a mirra e o vinho, a cânfora e o vinagre, a Índia, a África, o Brasil, o norte, o sul, o leste e o oeste onde a minha alma de africano encontrará descanso um dia.
Fernando Pessoa,
Lisboa, 29 de Agosto de 2008.»
Lisboa, 29 de Agosto de 2008.»
Lord of Erewhon
* Previamente publicado no blogue Nova Águia
e republicado, com minha permissão, no blogue Crónicas da Peste.
The Kingdom, 62.

52 Comments:
Adoro este texto, está tão bom que até pensaram que era do Pessoa... É só gente con cultura!=)
Beijo.
Pois, na altura nem ligaram à data... Acho que há pouca gente na blogosfera a ler.
Beijinho, Shezinha.
Lembro-me desses comentários "estranhos" ou nem por isso...:)
Claro que muita gente não lê. Ler dá um certo trabalho:)
E para dizerem: Excelente! Brilhante! Gostei muito...não é preciso ler...e o brilharete está feito.
Beijo*
P.S. A propósito: o texto é excelente...e li-o, aliás, reli-o.
Falta o Klatuu...;)
._________querido Lord
o texto é uma "obra de arte" e as as belas-obras_______ADMIRAM-SE!
.ah! como eu tenho a certeza______que a estátua do Carlos tremeu:=)))
_____________///
beijO_______ternO
b.resto.de.domingo
Olá!
Mais um texto interessante que eu não conhecia :p
Kisses
Eu não sei se me reconheço neste Portugal, mas também ainda não me conheço assim tão bem para poder fazer paralelismos.
Abraço.
Vc sempre gostou de sacanear as´pessoas. Lembro que muita gente fez confusão com relação à autoria desse teu texto. Não sou tão má quanto a She, são pessoas desligadas.
Saudades tuas, lindinho meu!
Beijinho.
PS: Agora vou ver se tem alguma novidade lá na masmorra de painho.
Belíssimo texto. Pessoa iria gostar. Beijo.
Texto maravilhoso!
O pessoa adoraria lê-lo!
Antes de mais agradeço a visita e dou-te as boas vindas ao meu novo espaço.
Não pude deixar de reparar num comentário feito acima onde dizes "Acho que há pouca gente na blogosfera a ler". De facto nã há como discordar... (facto esse que quase lamento)
Quanto ao texto, gostei especialmente da articulação feita entre o tempo.
Um beijo
~t.
que raio de comentário foi aquele ? oO
Coisas de vampiro, amiga... JAJAJAJAJA!!!
Dark kiss.
ok.. confesso que me assustei o.O
obrigada pelo convite, mas vou recusar.. já mal tenho tempo para o meu... :)
Não és a única (mas fizeste bem em mudar a foto; o mundo é um mau lugar)...
LOL!!!
É na boa. Sou um bom vampiro (o Dark Violet pode atestar)... ;)
Dark kiss. Fica bem.
obrigada. eu passo por cá mais vezes.*
Não tens de quê, Sinestesia... ;)
Dark kiss.
Ou dava-me um tiro... LOL!!!
Abraço, Siegrfried.
Sei não... :)=
Dark kiss, Adriana.
Sacanear é meu reino... JAJAJAJAJA!!!
Beijinho, minha morceguinha.
P. S. Só quando tu for tão má quanto a She estará no ponto! ;)
Ó Rafeiro, mas também o teu Portugal só pode ser o «dos pequeninos»... :)=
Abraço!
Pois Ana, este veio da arca do Inferno... :)
Beijinhos.
Muito obrigado, amiga Betty.
Beijinhos.
Esse vem já a seguir... :)
Abraço, Dark Violet... Vai mas é a'O Bar descarregar os Magnifiqat.
Nem todos os passarinhos têm a tua mioleira... :)
Beijinhos, amiga Andorinha.
E serás bem-vinda, Ana Luísa... e nada receies: não me alimento de meninas, prefiro os tigres, dão mais luta...
Que mané tigre...és um galinhão e eu vou cortão teu pinto...JAJAJAJAJAJAJAJA!
Isso tu não consegue: pinto de vampiro é eterno! JAJAJAJAJAJA!!!
Nada é eterno. Vampiro morre com uma estaca no peito, e teu pinto eu cortocom uma foice...ui!
Força cósmica do pinto, é! LOL!!!
E foice não resulta: tem que ser entalado no portão do cemitério, depois afogado, depois amassado como farinha pra bolo, depois esticado e depois amaldiçoado com água benta... Mesmo assim a maioria das vezes não resulta! JAJAJAJAJA!!!
Beijinho, maninha.
P. S. Já terminou todas as provas?
Já, mas tenho trabalhos de matemática pra fazer. Como sempre me ferro em matemática. Não sei pq existe esta bosta de matéria.
Eu explico para quê...
Para que num dia futuro, em miríades de foguetões de prata e carmim, nos espalhemos por todo o Universo... e fundemos o Império Galáctico dos Vampiros!...
VAI ESTUDAR MATEMÁTICA!!
Se obtiver boa classificação... vai ganhar... ;)
Quem gosta de MATEMÁTICA é maluco!
pra fundar o império galáctico tem que SE ser bom em poesia e história...JAJAJAJA!
Isso é, mas ainda assim, precisamos dos cientistas pra que inventem pra nós o caixão voador! :)
Então eles que se ralem pra fazer nossos caixões. O que eu já tinha que aprender dessa bosta de matéria já aprendi. Qual a utilidade de uma derivada ou integral pra mim? Nenhuma.
Tem toda: o cálculo matemático é que prova que estamos sãos (tem que ler «Meditações Sobre a Filosofia Primeira», de René Descartes) e nos ajuda a sair de buracos difíceis (tem que ver o filme «O Cubo», Vincenzo Natali, 1997).
Quer ganhar ambos? Faça os melhores trabalhos da classe! :)=
P. S. No filme só há salvação para quem leu René Descartes e gosta de matemática....
in the name… ;)
Não adianta, pderias ofercer-me um milhão de euros. Prescindiria deles só pela matemática.
Com um milhão se compra muita gruta... :)
Muito obrigado, Ruela!
Abraço!
I love pessoa as well as borges (I guess that is how we met) and I just written that The critic Harold Bloom referred to him in the book The Western Canon as the most representative poet of the twentieth century, along with Pablo Neruda.
Which is the other of the text I wrote in my post about borges, for Warnell, cause It fit so well with his artwork.
I always thought they have things in common, a lot of course, metaphisical thoughts, new revolutionary ways of writting, and they also liked to laugh at the universe, specially when taken serious and for real.
Borges also was a great admirer of Pessoa. You know, Borges touched my arm, back in the 80's, in the University of Lisbon, going up the stairs in the anfitiatrum II. I was clapping him, with other students, and, being a blind old man, he took some balance in my arm. I will never forget that moment!
Borges is one of my masters.
Cheers!
Lord,
Talvez o principal problema deste Portugalzinho dos pequeninos em que vivemos seja precisamente o facto de haver muita gente por aí a pensar que ainda somos a capital do Império.
Abraço.
Em parte até te dou razão...
Abraço!
Pensei que vc tivesse servido demodelo pro Ruela. Pensei cá com minhas asinhas: Uai, Lord resolveu mostrar o rosto e posar pro Ruela?
Fosse esse o caso e a imagem teria ficado feia pra carai e não aquela beleza! JAJAJAJAJA!!!
Beijinho, minha morceguinha.
P. S. Você não sabe que vampiro não aparece em imagem?? :)=
I couldn't leave a comment on the other blog. The url was invalid.
I forgot that here you were an ice-cool blue and with the writing always beautiful.
Thank you for still remembering me.
Where is your new blog?
Big hug!
(suzan abrams)
Muito bom. Grande abraço.
Excelente texto!
Não me admiro que alguém pudesse achar que fora escrito por Pessoa, este é um dos melhores posts que já li no mundo dos blogues. :)
*
Na volta foi um momento de possessão... :)
Dark kiss, Spidraphile.
Abraço, Nelson!
Tudo de bom.
For O Bar do Ossian, just click on the right side of the blog, and for Crónicas da Peste click on «Need a Tea?».
I remember, Suzan... ;)
Kiss, kiss, kiss.
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